disfunções vitais, 2021

livro de Silvana Macêdo, publicado pela Editora Caseira

Este livro foi composto em Bariol Serif. Miolo impresso em papel offset 180g. Capa com baixo relevo em papel Rives tradition Bright white 240g, cinta impressa em papel Rives Design 170g.

Encadernação artesanal pela Editora Caseira em Florianópolis, 2021. Projeto gráfico de Lorena Galery. ISBN: 978-65-88489-28-4

 

 

um corpo só órgãos

 

Presenciei órgão à órgão a escritura que se teceu neste livro. Por um lado, este livro é a continuidade de uma pesquisa que a Silvana empenha há anos no que diz respeito ao saber do corpo. Por outro lado, o processo que se encorpou aqui começou com um incômodo: escrever. Fiquei muito entusiasmada em dar corpo às trocas com a artista e testemunhar o desenho da pergunta medular que move este livro: o que é uma escrita do corpo? Ou: como tornar o incômodo escrevível?

A série apresenta dez pinturas e textos atravessados fundamentalmente pelo conflito entre o corpo organismo e o corpo intensidade. Desde a perspectiva do discurso médico-científico, os órgãos que formam o organismo podem ser mensurados. Pode-se atribuir uma função aos órgãos, bem como qualificá-los. A intensidade, no entanto, não se mensura, nem se qualifica.  Escritas do corpo não são somente escritas sobre o corpo, são escritas com as sensações que atravessam e delimitam o que chamamos de corpo. Quando Deleuze escreveu o efeito do discurso colonial no nosso imaginário do corpo, ele sugeriu o corpo funcional, isto é, um corpo objeto da ciência, um corpo separado do mundo, um corpo que funciona de determinado modo. E quando Deleuze foi propor o corpo para além da sua função, contagiado pela  poesia do Artaud, ele o chamou de um corpo sem órgãos. O trabalho da Silvana corre tão profundamente nessa tensão do corpo para além da sua função que nós poderíamos dizer que aqui se trata de um corpo só órgãos.  Isso porque este trabalho coloca em foco como a intensidade desenha dos ossos às vísceras. As dores e aquilo que se convencionou chamar de doenças são desde esse lugar uma “crônica lembrança” do que retorna pra nós de um mundo hierarquica e violentamente dividido.

 

[Baço]

É verdade que fiquei doente depois da trágica morte da minha mãe. Meu baço enlutado reverteu a luta contra mim. O QG de células-brancas-soldadas me ataca. Me vê como inimiga a ser combatida?

Um problema de auto-reconhecimento.

Isso que o lúpus não me deixa esquecer. Crônica lembrança. Doença incurável e de origem desconhecida, ancora em mim esta memória.

 

Num ritmo de sístole-diástole, essa série capta a arritmia e o desencontro das funções idealizadas e das sensações: “Acho que tenho uma disfunção na garganta”. Parte à parte, Silvana vai tateando o corpo como um texto e destramando seus fios: sentipensando sua materialidade. No embate entre a limpidez, a objetividade, as linhas definidas, as funções e os borrões, a inter-subjetividade, os rabiscos, as disfunções, vamos com a artista revisitando as narrativas que acompanham o corpo funcional e que o conformam numa repetição de culpa, de mágoa e de falta. Ao denselear algo dessa trama, vemos a marca que esses fios narrativos deixaram e vemos como apesar das marcas serem singulares em cada corpo, os fios que as amarram são compartilhados pelos corpos todos. Silvana vai nomeando essas cordas, esses assaltos, essas queimadas, esse ritmo acelerado do trabalho remoto, o excesso das telas, o espaço absolutamente restrito que corpo ocupa numa sociedade neoliberal em plena pandemia. “O roubo dos sonhos”, escreve literal e metaforicamente a artista, quando de madrugada fala com a glândula pineal.

É um pouco assim que leio este livro: uma exposição das maculaturas.  Isto é, a partir da marca-matriz a artista trans-forma aquilo que certo olhar vê como mal impresso, sujo, ou doente, disfuncional, infértil.  Disfunções vitais. Estes textos são redesenhos.  Nomear o conflito do corpo das funções e do corpo das intensidades é aqui uma abertura para fazer do incômodo o embrião da escrita e a possibilidade de dar corpo a outras imaginações.

texto de apresentação por Maiara Knihs