
9 encontros, 2024
de Silvana Macêdo, curadoria Juliana Crispe
Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso – enquanto seu lobo não vem –, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza.
Ailton Krenak Ideias para adiar o fim do mundo, 2019
A exposição “9 encontros”, de Silvana Macêdo, propõe pensar a ecologia decolonial, alinhada à perspectiva anunciada por Krenak, que concebe a humanidade como parte indissociável do cosmos e não nos vê como seres repartidos ou distantes da natureza. Ao mergulhar na Floresta Amazônica, para realizar a pesquisa de pósdoutorado intitulada Reflorestar a Si, a artista desenvolve uma série de trabalhos artísticos a partir de encontros com nove árvores amazônicas: Breuzinho (Protium heptaphyllum), Samaúma (Ceiba pentandra), Apuí (Ficus insipida), Castanheira (Bertholletia excelsa), Pau D’Arco (Handroanthus impetiginosus), Imburana de Cheiro (Amburana acreana), Mulateiro (Calycophyllum spruceanum), Massaranduba (Manilkara bidentata) e Carapanaúba (Aspidosperma nitidum). Em sua jornada até encontrar cada uma destas espécies, Silvana buscou como fonte de pesquisa o conhecimento das comunidades ribeirinhas, seus saberes ancestrais a respeito das plantas. Iniciou um movimento de aprender a medicina da floresta com uma miríade de pessoas que cruzaram seu caminho, desde a equipe de botânicos do PDBFF- INPA(1) , quanto mateiros, curandeiros e indígenas conhecedores de tradições originárias. Assim a artista busca dar forma e sentido à sua experiência, que nesta exposição se desdobra em pinturas, fotografias, instalação e audiovisuais.
Não há como pensar em futuros emancipatórios sem reconhecer a importância para nossa sobrevivência de uma das bênçãos maiores do planeta, a Floresta Amazônica. Honrar a ancestralidade é também compreender, acolher e mover ações que colocam a experiência da vida como parte de um todo – plantas, humanos, animais, terra, oceanos. Ao mesmo tempo, urge perceber que o capitalismo e a supremacia patriarcal branca colocada historicamente como o centro do mundo, e que aqui se instalou desde a colonização europeia, continua sendo um lugar de opressão racial, de gênero, da diversidade e dos ataques ao meio ambiente.
A ecologia decolonial é uma crítica renovada das colonizações históricas e contemporâneas, bem como de seus legados, crítica que leva a sério as questões ecológicas do mundo. Em primeiríssimo lugar, trata-se de reconhecer que a relação colonial não se reduz a uma relação entre grupos de humanos. Ela compreende também relações específicas como não humanos, paisagens e terras por meio do habitar colonial da Terra. Isso significa que a emancipação da dominação colonial não pode ser pensada unicamente como uma mudança da relação de humanos com humanos, ela implica também uma transformação da relação colonial com as paisagens e com os não humanos, inclusive em suas formas escravagistas. A ecolologia decolonial é, portanto, um prolongamento ecológico das críticas existentes da fratura colonial. Malcon Ferdinand Uma ecologia decolonial – pensar a partir do mundo caribenho, 2022
Um habitar ecológico decolonial propõe indagar os sistemas, compor o mundo com o outro, indo além da ideia de aprender a viver junto, mas de ser em conjunto. Apontar as violências dos desmatamentos ao mesmo tempo em que percebe-se como parte da floresta, em sua exuberância, beleza e esplendor, inclui também fazer ecoar muitos dos gritos promovidos por artivismos(2) em que a arte torna-se lugar de contemplação e luta. Isso é o que Silvana Macêdo nos instiga a pensar em 9 encontros.
(1) PDBFF – Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas. https://pdbff.org.br/index.php/apresentacao/quem-somos
(2) O artivismo delimita o âmbito de ação que parte do individual, passa pelo coletivo e alcança insuspeitados espaços no qual se localiza o outro. Esta prática desloca o cenário da arte e da política para o espaço público.
texto de Juliana Crispe























